Palmela

PALMELA | Judas satírico deixa recados

A Queima de Judas mobilizou centenas de pessoas e lembrou de modo satírico algumas personalidades, não poupando recados na leitura do testamento da Sociedade Filarmónica Palmelense “Loureiros”. Até a modesta jornalista do Diário do Distrito foi lembrada arrancando-lhe um grito de alegria.

Autores
  • Fatima Brinca (Jornalista Jubilada)

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Foto
  • Diário Imagem | Arsénio Franco

Localidade
  • Palmela

Categoria
  • Cultura

No Largo dos Loureiros o Judas pendurado parecia avisar para o testamento que ali vinha, não faltando criatividade a quem o escreveu.

 

As prendas foram muitas e os recados satíricos foram brindados com palmas e alguns risos amarelos.

 

E o testamento começou “boa noite, meus senhores/ aqui estamos mais um ano/ como juízes e doutores/ condenar o Judas profano”.

 

E lá do alto da forca o Judas avisava “aqui de novo pendurado/ julgado por alta traição/mostra ar de amargurado/ sem direito a prescrição” e lembrava “este Judas traidor/ que se diz não ter cadastro/com ar desolador/ está pendurado no mastro”. Ao rufar dos tambores associava-se a banda em ritmo de alegria “a todos peço silêncio/ p’ras palavras que vão ouvir/ um momento de prefácio/ para a todos vos servir” e alertava “neste sábado de Aleluia/o testamento vamos ler/ sem cobrar qualquer maquia/ surpresas vamos ter”.

 

E começou a leitura perante os olhares atentos de dois criadores de marchas, Bruno Frazão e João Praia, que desceram da cidade do Sado para ouvirem “Palmela que és tão linda/ cheia de amor e tradição/ cada vez tens mais doutores/ e mestres na canção”.

 

A primeira prenda estava dada, mas outras se seguiram “ao jornal mais conhecido/ que quer uma nova presidência/ fica já incumbido/ de se curar da Demência”. Mas as eleições que se aproximam também trouxeram avisos em forma de recados “aos futuros candidatos/ que prometem o seu melhor/ lembrem-se que os mandatos/ não são casas de Penhor”. Palmela é terra de vinhos e os saborosos néctares não foram esquecidos “para aqueles que tudo sabem/ com palavras de paixão/ quando o vinho desce, as palavras sobem/ deixo-lhes um prego de caixão”. E a gastronomia também teve o seu recado “aos amigos da jantarada/ com seus cozinheiros afamados/ amantes da tourada/ e temperos, bem regados” e lá veio a prenda “deixo-lhes um telemóvel/ de serviço universal/ de efeito previsível/ para ligar ao hospital”.

 

Mas os toques satíricos continuaram com “o pouco que tenho para deixar/ vou fazê-lo com sabedoria/ e umas verdades lançar/sem qualquer fantasia” e “ao povo de Palmela/ amantes da vindima/ deixo-lhes a equipa da Anabela/para a festa que se aproxima”.

 

Em época da Quaresma o pároco não foi esquecido “ao nosso padre e amigo/ que Palmela soube acolher/ Livrai-nos de todo o castigo/ e do homem que é mulher” e o papa também não esquecido “ao nosso papa Francisco/ como coração cheio de pureza/ deixo-lhe um obelisco/ para acabar com a pobreza”.

 

 Mas também quem governa não ficou sem prenda “aos nossos governantes/ com discurso popular/ deixo-lhes todos os habitantes/ para os impostos aumentar”, e “ao Presidente Marcelo/ homem com energia sem par/ vou-lhe deixar um martelo/ para se necessário usar”, para  “o primeiro ministro António Costa/ deixo-lhe um dente de uma onça/ que continue com a aposta/ de conduzir a geringonça”.

 

E os governantes locais também foram brindados com recados “deixo ainda à vereação/ o culto da sabedoria/ e um livro de oração/ p’rás horas de aposentadoria”, seguindo-se o presidente da junta “ao meu amigo Baião/ cujo cargo vai deixar/ deixo-lhe uma nova razão/ para ter que trabalhar” e o edil da autarquia “Amaro, nosso presidente/ na política e na canção/ mantenha-se diligente/ para manter a ascensão”.

 

A parede de cimento no monumento de referência também levou uma seta de alerta “para a boa gente de Palmela/ com seu castelo altaneiro/ deixo-os de sentinela/ pró reboco de pedreiro”.

 

Claro, que o testamento também não esqueceu a colectividade “ao Rogério Almeida vou deixar/ um cheque sem cobertura/ para nos Loureiros continuar/ a promover a cultura”. E se o presidente não “escapou” também “ao Mário Cabica/ deixo-lhe um lindo capuz/ para continuar com genica/ como técnico de som e luz”. Pois a modesta jornalista do DD também não ficou impune “à comunicação social/ cujas reportagens algo fica/ deixo um abraço cordial/ na pessoa da Fátima Brinca”.

 

O testamento estava quase a terminar, mas antes o Judas deixou ainda alguns recados “deixo à política raivosa/ cuja ideia é conspirar/ um pouco da minha corda/ para logo se enforcar”, mas “a todos aqui presentes/ vos deixo um só recado/ colocar panos quentes/ podes sair queimado” e a terminar “preservar a tradição/ e Palmela ajudar/ com os bombeiros de prevenção/ vamos o Judas Queimar”.

 

E o Judas ardeu rapidamente, seguindo-se o desfile até à sede do município e pelas ruas do Centro Histórico, com os bonecos de palha a serem queimados.

 

Os cinco Judas finais foram queimados no Largo de S. João, antes do fogo de artifício e dos bombos dos Bardoada.

 

A Queima de Judas terminou com a leitura do testamento da Câmara, que apostou em alertas sobre o “Trump e Le Pen”, mas avisando que “a Europa está ferida”. O testamento avisou o povo que “não embarque em cantigas” e lembrando “as escolas novas, a Saúde que está a chegar ao Pinhal Novo, o pavilhão no Poceirão”, mas lamentando que o “pavilhão em Palmela tarde a chegar”.  

 

O testamento da autarquia criticou ainda a delegação de competências por parte da administração central, que quer criar “mini governos tipo canivetes suíços”, sem esquecer a agregação “a régua e a esquadro que uniu a Marateca ao Poceirão”. 

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