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OPINIÃO - Uma comunicação poluída

Um artigo de opinião de André Nunes, deputado na Assembleia Municipal do Seixal, eleito pelo PAN.

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Depois do primeiro-ministro ter dito há uns meses, em debate quinzenal sobre prevenção florestal, que “mais vale cortar a mais do que a menos” e do ministro da Agricultura ter admitido em meados de Maio deste ano, sobre o corte de sobreiros sem autorização na tapada de Mafra, “que antes a segurança que a burocracia”, foi agora a vez do ministro do ambiente dar continuidade ao rol de afirmações infelizes proferidas por membros do Governo da República e nos brindar com mais uma pérola de insensibilidade ambiental.
 
Disse o senhor ministro que “A poluição é a [questão] que menos me preocupa, pois com capacidade de investimento, conseguimos resolver”. Ora, à parte de perceber a intenção do ministro de chamar à atenção para as questões relacionadas com o consumo desenfreado de recursos e, em particular, para a necessidade de se adoptar uma economia circular ao invés de continuar a aposta numa economia linear que tende a desbaratar recursos – e tal como, de resto, percebera as questões de segurança de pessoas e bens por detrás das afirmações de António Costa e Capoulas Santos – a verdade é que esta opção recorrente de secundarizar o ambiente e de o limitar à condição de recurso à mercê do Homem esconde em sim mesmo uma perigosa abordagem à própria preservação que se visa alcançar.
 
Desengane-se quem pensa que o que aqui se critica é (apenas) a forma, pois ainda que seja manifesta a infelicidade na escolha das palavras, o que salta mais à vista é a adopção deste discurso utilitarista por pessoas com enormes responsabilidades na erradicação de hábitos e práticas lesivas do ambiente.
 
É importante não esquecer que João Matos Fernandes é ministro do ambiente e é igualmente importante ter em conta que a poluição, a par do aquecimento global, é questão absolutamente central em matéria de preservação do ambiente. Ora, se para um ministro do ambiente a poluição é a questão que menos preocupação lhe merece, o que dirá o comum cidadão que, no dia-a-dia, é exortado a regrar o seu consumo e a fazer escolhas ambientalmente sustentáveis, inclusivamente pelo próprio Estado? Imagine-se o que se diria de um qualquer ministro da saúde que viesse a público dizer que aquilo que menos o preocupa é a vida dos seus cidadãos. Alguém aceitaria? Pois bem, é nesse exacto ponto em que ficamos de cada vez que um membro do governo ou de um órgão do Estado desvaloriza o impacto do Homem no meio ambiente e lhe confere menor dignidade.
 
Simultaneamente, é também ela altamente questionável a justificação utilizada pelo ministro para o desmerecer da preocupação, a saber, o papel decisivo do investimento no combate à poluição. Um argumento que surge na esteira de uma ideia que se tem vindo a generalizar na classe política ocidental: a de que o planeta aguardará o tempo que precisarmos, independentemente da sua (in)capacidade para aguentar reiterados ataques. A ideia, que tem como bandeira as metas a vinte e mais anos – como aquelas que saíram de Paris em 2015 – é, porventura, o nosso maior inimigo no combate à degradação do planeta, sendo que as palavras do ministro se enquadram nesse discurso perigoso de que basta querermos para tudo se resolver.
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