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OPINIÃO - Via Crucis

Esta semana, um texto de opinião de Gameiro Fernandes sobre a Quaresma.

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Et inclinato capite, tradidit spiritum (Jo XIX,30).
É a liberdade religiosa um dos Direitos mais elementares da humanidade. Princípio que implica necessáriamente a protecção de quem tem e de quem não tem apetência por professar qualquer religião ou inclinar-se perante o que entenda não ser susceptivel de inclinação.
 
A este propósito repugna-me a imposição de qualquer credo ou crença seja por via da força, ou de qualquer outra que não tenha a anuência do seu destinatário.
 
A notícia recentemente vinda a lume de um elemento das forças Policiais se ter dado ao trabalho de elaborar, produzir e debitar um sermão aos detidos que se encontravam na esquadra, poderia parecer à primeira vista inócuo e desnutrido de qualquer interesse não fora a clara e absurda violação desse princípio fundamental.
 
Que se doutrine quem quiser ser doutrinado é um direito que assiste a quem professe qualquer crença religiosa.
O Direito de um termina no preciso local onde se inicia o Direito de quem não a queira professar.
A imposição por sermão dessa crença a quem não deu o consentimento para que tal prédica lhe fosse dirigida, nem sente vontade ou necessidade de a assimilar para sua felicidade e proveito pessoal, é uma clara violação do Direito de qualquer cidadão, maior ainda se se encontrar detido e incapacitado de se opor a essa verbosidade indesejada.
 
A partir deste ponto e porque as posições que serão assumidas podem ferir a susceptibilidade de quem tenha enraizado no seu espírito dogmas de fé que não sejam compatíveis com o contraditório, desaconselho vivamente a estas criaturas, sensíveis à diferença, o prosseguimento da leitura deste pequeno e despretensioso texto.
 Destina-se o mesmo apenas a quem tenha a clarividente capacidade de aceitar opiniões diferentes e até totalmente contraditórias às suas convicções pessoais.
 Fica este aviso para não nos quedarmos no erro em que tropeçou o referido elemento doutrinador, que de espontâneo discurso não procurou verificar se os indivíduos que já se encontravam privados da sua liberdade, se encontravam disponíveis para a manipulação nos tortuosos caminhos dos dogmas da fé.
 
Quem se encontrar a ler este texto não se encontra refém de o continuar a ler, podendo e devendo terminar aqui ou adiante a sua leitura, caso suspeita lhe advenha de risco para a sua alma, assumindo ao prosseguir, de livre e espontânea vontade, qualquer ofensa que lhe possa advir á integridade dogmática da sua fé religiosa.
Se apesar do claro aviso, persiste na leitura destas palavras, poderá ser teimoso ou possuidor de um espírito aberto.
Poderá ainda e apenas ser curioso e tentar perceber por que raio alguém se deu ao trabalho de colocar uma latinada no início do texto e qual a sua consequente importância para o que a seguir se dirá.
Assumindo o leitor o risco, anteciparei que pretendo com o presente texto manifestar a minha opinião de que uma religião, que fixa residência e direcciona toda a sua simbologia para um ser sangrante pendente de uma cruz não pode de forma alguma produzir alegria ou felicidade.
 
Tem a Religião Católica motivos menos funestos para ancorar a sua simbologia, mas ao longo da sua história tem vindo atarefadamente a atafulhar os cânones de mártires, reféns e decapitados, que no serviço da causa divina foram cortados, trucidados, empalados e sujeitos às maiores torturas que a humanidade conseguiu inventar para moldar o caracter e superiores convicções dos pecadores.
 
O porquê deste procedimento é de simples entendimento, pois é muito mais oportuno e funcional impor o sofrimento a alguém que já o assume como virtude.
Direccionando o povo para a glorificação da pobreza e do sofrimento, prometendo-lhe em cumprimento dessas tarefas a vida eterna, torna-se muito mais fácil controlar a adrenalina da populaça, que encontrando-se em condições de extrema pobreza e profundo sofrimento se revê na utilidade de um serviço prestado a deus.
Para as cabeças mais duras que não consigam divisar qualquer virtude na humilhação singular da extrema pobreza foi determinada a sua assimilação e encastramento na alma por via da força.
 
Para exemplo servirá apenas, que mais existe, a população de origem afro-americana, quase na sua totalidade proveniente de escravos, a quem a doutrinação dos claros e louváveis benefícios da obediência a deus e aos homens era incutida pela força do chicote.
População hoje em dia tanto mais religiosa quanto maio humilhação e chicotadas suportaram os seus antepassados, em prol da salvação da sua alma e doutrinação dos seus rebentos.
As caravelas europeias que levaram a todo o mundo as boas novas da salvação levavam como prova suprema da sua ciência uma cruz que pelo seu peso simbólico ia vergando no orgulho dos povos aquilo que prometiam na purificação da sua alma.
 
Uma religião que proíbe a adoração de ídolos "Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra”. Êxodo 20:3-4 ou “Por isso, meus amados irmãos, fujam da idolatria”, 1 Coríntios 10:14
Foi transformada em nome da purificação da rebeldia dos povos numa nova religião, tão falsa como a primeira, em que os santos são adorados e idolatrados na exacta medida e na proporcionalidade em que o seu sofrimento seja mais humilhante e doloroso.
Santo que não seja degolado, crucificado, espancado ou chicoteado não é digno do apelo fervoroso dos crentes.
 
Os sectores mais tradicionais da Igreja, que para infelicidade dos crentes a dominam financeiramente, fixaram-se definitivamente em plena Idade Média e de lá não pretendem sair nos dias que correm.
Vivem asceticamente nos primórdios Bíblicos, chicoteando-se três vezes ao dia, mais do que as refeições que tomam, para se identificarem no sofrimento com o cristo crucificado, procurando com esse sofrimento elevar-se à santidade, completamente desconhecedores da insanidade de que são portadores.
Não fora a importância financeira deste grupelho de fanáticos utilizadores do cilício e do chicote e tal não passaria de um caso clínico de mera saúde mental.
O problema começa a tornar-se sério quando este grupelho de fanáticos começa a deter parcialmente o controlo do aparelho político, financeiro e na sua consequência a gestão dos destinos da própria sociedade.
Tudo de forma discreta como convém a quem por certo terá vergonha das chicotadas que a si próprio aplica para salvação da sua alma e domesticação do corpo.
 
Esta associação de fanáticos que usa o nome de deus para promoção da sua obra, começa por violar os mandamentos da lei do seu deus, para quem desconhece logo o segundo de uma lista de dez.
Além de fazer alarde na violação de alguns dos sete que agora são treze pecados mortais, procurando pelo poder financeiro controlar a vontade da Igreja e do seu rebanho.
Numa clara e visível campanha de tomar o poder e a gestão total desse mesmo rebanho tomando de assalto através dos seus apaniguados, embora de forma subtil e invisível o controlo do Estado.
 
É preocupante constatar em certos sectores da nossa sociedade a existência de casos de flagrante empenhamento religioso, a que não fogem certas decisões judiciais mais atarefadas na imposição da lei divina do que na aplicação da lei dos homens.
A gestão de uma sociedade laica prescinde para sua própria sobrevivência de reacções sectárias e fundamentalistas.
A pequena frase em latim que deu inicio a este texto tem em tradução livre o significado de “E inclinando a cabeça, entregou o espírito” quadro retirado da 12ª Estação da Via Crucis “Jesus morre na Cruz” (S. João 19,28-30).
É este o momento central da simbologia Bíblica que suporta a religião Católica, a adoração de um homem alegadamente filho de deus que foi crucificado entre dois ladrões.
 
A cruz ensanguentada e a facies dolorosa fixou-se na religião como elemento essencial para a transmissão da fé, glorificando o sofrimento transformando o próprio crente num sofredor, o que é muito útil à domesticação da espécie e ao controlo absoluto do poder.
Claro que a religião não se resume a este estereotipo doloroso, mas pergunto se poderá ser concebida uma igreja sem uma cruz, ou sem imagens de santos e virgens de coração trespassado e sangrante.
Por este motivo o período da quaresma “quadragesima dies” é muito apreciado nos rituais da Igreja, onde durante quarenta dias as almas martirizadas se identificam sofredoras com o seu redentor.
Passam os crentes em dolorosas penitências mais do que o período que dedicam às suas férias, para no términus do luto emergirem com os mesmos defeitos e pecados.
Esquecendo para seu aproveitamento os outros ensinamentos estabelecidos pela sua religião, de onde ressalta o amor pelo próximo, a caridade desinteressada e o próprio bem-estar pessoal.
 
Apesar de facilmente se encontrar quem pratica a fé religiosa de forma espontânea e altruísta, onde ressalta o próprio líder religioso que é para todos os efeitos um ser humano exemplar, o certo é que a Igreja é controlada pelos seus sectores mais conservadores.
Conduzindo o fluxo religioso para o sofrimento, é mais fácil de atingir o caminho do fanatismo e por essa via moldar o rebanho à vontade de quem rege os destinos da fé.
Tudo para concluir que se alguém tiver apetência ou necessidade de retirar ensinamentos da bíblia é na vida de Cristo e não da sua morte que os deve procurar.
A dar voz à bíblia, Cristo na cruz não procurou doutrinar os seus companheiros de infortúnio tendo sido o seu exemplo a causa de propagação da sua doutrina e o que levou ao acto voluntário do ladrão convertido que saiu em sua defesa e que nesse dia o acompanhou para o paraíso (Lucas 23:39-43).
 
Aplicando o que se disse e apesar de assumidamente ateu com uma fé profunda na ausência de fé religiosa, é minha convicção que os ensinamentos da bíblia ou de qualquer religião ou até a ausência dela, não podem ser impostos pela força e sem a prévia autorização expressa do receptor.
Nessa sequência entendo ser um acto de violência moral impor a uma criança uma religião para a qual a mesma não tem capacidade de dar consentimento para a sua aceitação, mas abordarei autonomamente esta questão numa outra reflexão.
 
Entendo, no entanto, que a imposição de dogmas religiosos a crianças com ameaça de infernos e purgatórios é uma violência que destabiliza a estrutura psicológica das próprias crianças e potencia a formação de fanáticos religiosos.
O aproveitamento do estado de receptividade das crianças à assimilação como verdades do que os adultos lhes transmitem é um acto de cobardia de quem incute esses dogmas, que não os é capaz, ou terá mais dificuldade de os incutir a Adultos com a sua plena capacidade analítica.
Servindo-se da própria incapacidade natural de defesa das crianças para inocular desde tenra idade os dogmas de fé em quem não está preparado para dar o seu pleno consentimento à doutrinação.
 
O mesmo acontece a quem se encontra em posição de privação da sua liberdade, que não tem capacidade de se opor ou recusar a investida de um elemento da autoridade que tem apenas como missão impor a lei e proteger a comunidade e não a imposição de dogmas de fé a quem deles não necessita ou solicita.
Existe Liberdade para servir deus como existe liberdade para nele não acreditar.
Ambas as opções são válidas se a escolha for livre.
 2018 Gameiro Fernandes
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