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OPINIÃO - Acontece com as crianças de um Pequeníssimo País Imaginário

Esta semana, um novo texto de Gameiro Fernandes sobre como são tratadas crianças num ‘país imaginário’.

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O País que vos vou descrever é imaginário, na medida em que é praticamente impossível a sua real existência, sem necessariamente concluir que a sua população se encontre zombificada ou lobotomizada na sua inteligência racional, o que não dignificaria em nada um País que realmente tivesse existência.

No entanto e para as pessoas mais sensíveis ou que se reconheçam retratadas neste pequeno texto devo alertar para o facto de qualquer semelhança que consigam descortinar com algo que aconteça na vida real é mera coincidência, dada a impossibilidade prática de reunir tanta ineptidão e falta de vergonha num único País.

A estas pessoas mais sensíveis apelo desde já para interromperem de imediato a leitura antes de terem tempo e razão para se sentirem indignadas.

 

O relato que pretendo fazer prende-se apenas e tão somente com a actualidade fictícia deste ilusório e pequeníssimo País, deixando os momentos históricos e o retrato das glórias passadas no limbo do tempo, uma vez que os antepassados dos actuais habitantes dessa terreola imaginária, apesar de alguma, não têm a integral culpa da degeneração genética e moral a que chegaram alguns dos seus descendentes.

Vamos então poupar ao escrutínio os saudosos antepassados desse povinho imaginário, que apesar de portadores de algumas das imperfeições próprias e inerentes a qualquer ser humano, ressalta apenas em seu desfavor, a activa participação estrutural que permitiu aos seus descendentes tornarem-se nos inúteis emplastros que hoje se pavoneiam pelos corredores do poder que governa esse imaginário e hipotético País.

 

Qualquer País que se preze, mesmo imaginário tem de ser analisado pelas suas Instituições Políticas, religiosas e sociais, que são o reflexo das pessoas que as criaram, inscritas no próprio ADN de uma Nação.

Na descoberta deste País imaginário, que apesar de impróprio como exemplo e enfadonho para análise não poderá deixar de fazer parte a investigação sobre as suas Instituições e funcionamento do seu modo disfuncionante.

Pelo que, desde já e para quem não tiver tempo ou paciência para continuar a ler estas imaginárias cogitações, teremos de concluir que no caso vertente as instituições visíveis deste País imaginário não terão qualquer relevância para o estado em que o mesmo se encontra, pois são somente facetas visíveis do poder oculto que invisivelmente o governam, esse sim o principal culpado do seu estado de vergonhosa calamidade.

 Pois esse pequeníssimo País imaginário é governado por dois poderes escondidos mas não envergonhados, que disputando na sombra, dele dispõem a seu bel prazer, determinando visivelmente as suas ordens invisíveis.

 

É esse pequeníssimo País gerido bicefalamente por duas forças que em braço de ferro o governam e na sombra se governam, que convém saber identificar.

Uma corrente religiosa medievalista conhecida como a Obra de Deus e uma corrente mais materialista, organizada em sociedades secretas em disputa entre si, que mediante rituais rocambolescos e fazendo alarido do uso do avental disputam as decisões de cada momento desse pequeníssimo e desfuturizado País

A Religião que deu origem à Obra de Deus, sendo a instituição mais enraizada é a principal culpada do estado actual desse miserável País virtual.

Tem vindo a religião, que para o caso não interessa qual, uma vez que são todas iguais no seu efeito, a moldar esse País imaginário desde antes da sua criação contribuindo de forma activa para o seu aparecimento desigualmente semelhante aos outros Estados.

Como consequência necessária dessa certidão de nascimento encontra-se inscrita no seu futuro obituário a omnipresente influência do poder religioso que ocultamente o tem conduzido entre guerras e desastrosas soluções políticas que moldaram o caracter antes indomável do povo que o habita, o qual vergando os costados antes erectos, assume o desastre como consequência necessária e desejável para conseguir alcançar a vida eterna.

A religião lobotomizando o caracter indomável de um povo, ajoelhou-o perante uma promessa que não tem poder para cumprir nem para fazer cumprir.

As Sociedades secretas divididas e antagónicas entre si, têm a mesma estrutura e finalidade das Associações de malfeitores dos tempos da lei seca, dividindo as oportunidades de negócio que só a uns aproveitam, mediante a ilusão distribuída de forma abundante pelos seus membros em rituais carnavalescos de que pertencem a algo de muito especial do qual nunca em bom rigor chegam a usufruir o proveito principal que se encontra reservado em exclusivo às elites dessas secretas associações.

E vão esforçadamente recebendo parcas migalhas, ocupando cargos na estrutura do estado que lhes vai matando a fome que de outro modo os acabaria por matar, dada a sua declarada ineptidão para angariarem o seu sustento de outro modo que não o parasitário.

 

É o destino desta inventada Nação gerido por um lado pela Religião corporizada no seu aspecto mais negativo e por um grupo de Associados onde parte substancial são figurantes iludidos pelos pequenos cargos administrativos que lhes vão sendo atirados por quem de facto abocanha o pedaço maior.

Como consequência deste pacto bicéfalo são as instituições visíveis controladas por marionetes manobradas por quem na sombra detêm a ponta do fio e o poder decisório.

Encontrando-se o seu controlo dividido de forma intermitente, pelo braço de ferro que se trava na sombra, pelo que é perfeitamente natural descobrir uma Instituição controlada pelo cilício e outra controlada pelo avental, ou uma outra tecnicamente empatada.

A luta pelo poder nesse pequeno país imaginário leva a que se trave na sombra a batalha pela melhor posição de controlo nos diversos órgãos de Soberania e instituições deles dependentes.

Por algum motivo ditou o destino que neste pequeno País imaginário a Magistratura, um dos órgãos de Soberania, assim chamado, não por ser eleito democraticamente mas por um grupo de revolucionários traumatizados por um período mais autocrático da vida da Nação, ter inscrito que assim seria, viesse a ficar sob o domínio do cilício.

Enquanto o Parlamento desse pequeno e imaginário País ficou nas mãos dos homens de avental.

O outro órgão de Soberania, denominado Presidência, por apenas ter um desempenho simbólico é desnutrido de interesse para esta pequena análise, pese embora a sua visibilidade mediática abundantemente utilizada e extrapolada pelo ocupante do cargo, ser aproveitada por quem de facto detêm o poder desviando das luzes da ribalta os pequenos percalços que aparecem em virtude da sua gestão ruinosa.

É, no entanto, uma figura muito apreciada pela populaça local que bebem fervorosamente as opiniões de tão augusta figura sobre tudo o que mexe ou pensa em mexer naquele pequeníssimo País.

Opiniões de manifesta importância existencial para a Nação que vão desde a arte de varejar a cereja à primordial questão de aprender a beber uma ginginha sem pingar a gravata.

 

Ora os homens de Avental são por natureza dados aos negócios, não querendo isto dizer que os do cilício não o sejam só que de forma mais discreta como convém a um empreendimento que tem milénio de existência.

Dentro desses negócios e porque abocanhando fatias substanciais do dinheiro público colocam-se a jeito para poderem ser por sua vez abocanhados pelo poder judicial.

O que leva a assumir que nesse pequeno País imaginário, quem controlar o poder Judicial controlará na realidade o poder político dada a natural e desavergonhada voracidade destes últimos.

Controlando o cilício a Magistratura deste pequeno e imaginário País é fácil através do seu centro de formação de magistrados incutir um espírito programático que leve à prossecução dos interesses da Obra de deus na terra.

Atendendo a que este órgão de soberania não está sujeito ao escrutínio da eleição, o seu controlo é feito a partir do seu interior, pelo que fácil se torna estabelecer um programa consentâneo com os objectivos que vierem a ser determinados, mediante uma política pavloviana do prémio que constitui um estímulo na promoção das suas carreiras.

Premiando com promoção ou punindo com a manutenção os magistrados em função do cumprimento dos objectivos.

 

Com a evolução da sociedade foi-se o povo afastando dos ideários religiosos não levando os seus filhos aos centros de culto para que fossem iniciados nos dogmas de fé, que por tão absurdos só seria possível de impor pelo terror e ainda por cima a crianças ou jovens de tenra idade de forma a produzir a sua aceitação como verdades incontestáveis, pois um adulto as descartaria de imediato por inconsistentes.

Daí se tornar imperativo para os fustigadores do cilício a criação programática da necessidade de retirar aos seus progenitores as crianças desse povo imaginário de modo a serem facilmente iniciadas e programadas nos dogmas da fé como convém á salvação da sua alma.

Sendo nesse pequeno País imaginário as obras sociais controladas directa ou indirectamente pela religião nada mais fácil de se colocar em prática essa operação de lavagem cerebral usando as infraestruturas já existentes.

Com o benefício acrescido de o Estado comparticipar com dinheiro para que essas crianças pudessem ser acolhidas em prisão domiciliária nesses centros de purificação.

 

Ora este benefício de dois em um não poderia passar despercebido do ávido apetite dos sempre esfomeados indivíduos do avental que como convinha reservou para si uma fatia deste apetecível negócio.

Neste pequeno País imaginário começaram assim as palestras de uns quantos elementos que foram incentivados a divulgarem a boa nova por tudo o que tivesse quatro paredes e muitas cadeiras, mas escondendo como é obvio e evidente os verdadeiros interesses programático/financeiros.

Iniciou-se uma operação de marketing que visava na sua essência eliminar a figura materna invocando uma parvoíce que analisada ao pormenor mas se afigura uma aldrabice, denominada de síndrome da alienação Parental e ainda uma aberração psicológica que consiste na imposição da guarda partilhada das crianças, que mais não é do que um prémio ao progenitor que se queira eximir da obrigação de prestar alimentos e muitas vezes como arremesso de vingança sobre a progenitora por esta ter arranjado companheiro mais adequado ou funcional.

Estas conferências de venda de banha da cobra ocorreram e ocorrem por todo o pequeno País imaginário, procurando vender as suas apregoadas vantagens, exibindo como milagres os potenciais casos de sucesso com guardas partilhadas recentes.

Mas escondendo muito convenientemente que na grande maioria desses casos a guarda partilhada havia sido imposta mediante ameaça coactiva de retirada pura e simples dos filhos.

Ainda assim, nestes casos com a condição de aceitar uma suspensão provisória do processo de violência doméstica pendente contra o ex-companheiro.

 

Com base nesta doutrina foram retiradas do peito de suas progenitoras crianças em idade de amamentação e entregues indiscriminadamente aos seus progenitores masculinos que por impossibilidade natural não as poderiam amamentar.

Choveram torrentes de sentenças com os arquivamentos dos crimes de violação, violência doméstica e até algumas aberrantes decisões, ancoradas em duvidosa fundamentação religiosa enraizada nos tempos em que os homens usavam barbas até ao pés e deus falava aos profetas do cimo de arbustos flamejantes.

 

Tempos em que as mulheres eram consideradas meros objectos para usufruto dos homens e que a nova corrente doutrinária do cilicio pretende actuamente circunscrever à funcionalidade de um eletrodoméstico, pese embora com direito de escolha entre ser uma torradeira, máquina de lavar ou frigorífico, livre arbítrio bastante para a salvação da sua alma.

Foi escondido de quem queria acreditar nesta falácia que a desproteção destas mães com a aceitação da suspensão provisória do processo de violência doméstica as colocariam à mercê do agressor, que em certos casos levou à sua morte prematura.

Ficou por dizer nessas palestras promocionais que a guarda partilhada só funciona nos casos em que os progenitores são capazes de dialogar, não funcionando em todos os restantes casos, mesmo que artificialmente se pretenda provocar esse diálogo.

Só na cabeça de alguém direccionado num sentido pré-determinado poderá caber a ideia de que após um divórcio a relação entre o ex-casal seja propícia a um diálogo, que possa levar a uma guarda partilhada, pese embora seja essa a ideia que é vendida aos iludidos compradores deste produto deteriorado.

O que fica igualmente escondido de forma deliberada é que uma guarda partilhada imposta pela força da coacção num caso de violência doméstica levará necessariamente numa segunda fase à retirada dessa criança aos seus progenitores e a sua consequente institucionalização, objectivo que serve os interesses do cilício.

A Segurança Social deste pequeno País imaginário esforçou-se arduamente para levar ás suas funcionárias a boa nova da institucionalização que por sua vez gerava o negócio bivalente da receita para todos e da angariação de almas para povoar as pastagens celestiais.

 

O que ficou por dizer e seguramente o mais importante é que se não fosse a bicefalia directiva e o pequeníssimo País Imaginário fosse de facto um País Real, as crianças retiradas às suas famílias só o seriam por de facto ser necessário por essas crianças se encontrarem de facto em risco.

E nestes casos sendo uma obrigação do Estado de zelar pelas suas crianças em perigo, seria ao Estado que caberia prover pelo seu acolhimento em vez de delegar essa obrigação pessoal e intransmissível em Associações privadas que visando por um lado o lucro e por outro a doutrinação das almas, pressionam a retirada imponderada de crianças que de outra forma permaneceriam no seu seio familiar.

Muito haveria de dizer sobre esta matéria, mas o tempo e a paciência são curtos pelo que encurtando o que curto se pretende, teremos de retirar que neste pequeno País imaginário que só por malévola intenção se poderá comparar com algum País real, o negócio das almas e o negócio material andam de braço dado, com claro prejuízo para as famílias e crianças objectos desse mesmo negócio.

A família e as crianças, neste País imaginário ou em qualquer outro real não podem em caso algum ser objecto de negócio ou de doutrinação forçada.

 

Na realidade, neste Pequeno País Imaginário são todos os seus cidadãos que estão em risco, pese embora ainda não se tenham apercebido desse facto, por se tratar de um estado imaginário e pouco dado à imaginação.

Afigura-se-me que o povo desse pequeno País imaginário não acordou para a consciência de que, está com a sua inércia a contribuir para que um dia o azar lhes venha bater à porta e sejam as suas crianças que prosseguirão a via sacra da doutrinação e da salvação eterna.

 Nesse dia será tarde, embora seja minha obrigação de descansar os leitores caso não tenham imaginação suficiente dado que isto só pode mesmo acontecer nos pequenos Países imaginários, nunca num País que tenha real existência.

É este pequeno País imaginário que não quero que o meu País que também foi dos meus antepassados se venha a tornar, servindo o presente de alerta para que tal nunca venha a acontecer.

 2018 Gameiro Fernandes

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