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OPINIÃO - A Relatividade da moral e da honra

Esta semana outro artigo de opinião de Gameiro Fernandes, sobre a honra e a moral.

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Começarei por contar uma pequena história, que diga-se em abono da verdade é totalmente inventada e encurtada na exacta medida em que serve o manifesto propósito a que destina que é o dela se poderem retirar as necessárias conclusões.

 

Existiu na relatividade do tempo um homem que na sua integridade e firmeza de caracter decidiu destinar um terço de todos os proventos que lhe adviessem do seu trabalho ou dos favores da providência, para minorar as angustias dos desvalidos da sorte e da fortuna.

Este homem farto de carácter mas parco de meios, deu a palavra a si próprio de que desse modo actuaria enquanto fosse vivo.

De tudo o que auferia, destinou com muito sacrifício a partir dessa data, um terço para auxilio dos seus semelhantes e minimização das suas desventuranças.

Foi este ser humano exemplar vivendo e auxiliando todos os que do seu auxilio necessitavam, afectando para esse fim tudo aquilo que em cumprimento da sua palavra teria de afectar.

 

Chegado um dia viu-se este homem, extraordinário pelo menos até essa data, recompensado pela roda da fortuna, ganhando inesperadamente cento e vinte milhões de euros.

O homem que na sua pobreza inicial e nobreza de caracter, havia dividido religiosamente um de cada três pães granjeados, viu-se de repente milionário.

Sem ter bem a noção do que significava tal fortuna começou a fazer contas com o que, com ela poderia fruir.

Idealizou a aquisição de um castelo, uma viagem à volta do mundo, a compra de diversos automóveis que se adaptassem ao estado de espirito do momento entre outra fabulações e recorrências.

De ideação em ideação, foi ficando cada vez mais ciente do que aquela volta da fortuna significava em bens materiais e conforto.

Depois de se sentir confortável com a sua nova adequação estatutária e exaltado na glorificação que lhe era feita por aqueles que dele antes não se aproximavam, começou a dar mão à árdua tarefa de usufruir das particularidades que lhe eram oferecidas por essa nova e prazenteira faceta da fortuna.

 

Emparceirando e acamaradando com pessoas que antes dele se afastavam porque nele apenas viam o exótico filantropo que da sua pobreza dividia um terço.

E que agora, tais como as traças se aproximam da luz se aconchegavam na luminosidade que representavam aqueles milhões cintilantes.

De gasto em gasto se foi esquecendo o nosso homem da promessa que a si mesmo havia feito, até que, de repente, quando já havia delapidado metade do que havia facilmente ganho, dela de repente se lembrou.

Do pecúlio inicial apenas restavam sessenta milhões, sendo o nosso homem confrontado com a opção de honrar a sua palavra, tanto mais importante porque tinha sido dada a si próprio, ou recomeçar o laborioso trabalho de delapidar os milhões sobrantes.

Colocou-se a fazer contas ao pecúlio restante e chegou à ingrata, e irrevogável conclusão de que para cumprir a sua palavra teria de apenas reter para si vinte milhões, entregando os restantes quarenta milhões aos necessitados e desvalidos da fortuna, destinatários iniciais e finais da sua promessa.

 

Porém os novos hábitos adquiridos reclamavam a totalidade do pecúlio para seu uso e proveito exclusivo.

A sua noção de Moral e de Honra obrigava-o a apenas reservar para si vinte milhões, quantia mais que suficiente para levar uma vida sem dificuldades e isenta de qualquer mácula.

Os novos e atarefados amigos do pecúlio do nosso homem, que este tinha por muito seus amigos, concorriam em comunhão de esforços com os hábitos adquiridos e reclamavam com as suas adulações e promessas de amizade futura que fosse dispondo do património de forma a que vaidade se sobrepusesse aos entraves que eram colocados pela Honra e pela Moral.

 

Adiantei que se trataria de uma história curta, e gosto de cumprir as minhas promessas, pelo que, encurtando o que curto se pretende, concluo que o homem, que até essa data havia sido integro e honesto, não o deixando de ser para uns e abdicando da honra para outros, decidiu não cumprir com a promessa que a si próprio havia feito, perdendo os fulgurosos amigos recentes e o respeito dos muitos a quem anteriormente tinha feito bem, quando os ditos milhões se finaram na mesma pobreza em que tinham nascido.

Isto porque nessa ilusória fogueira de vaidade, fulgurosamente esportulou o nosso homem todo o pecúlio que, diga-se em abono da verdade, não lhe havia custado nada a granjear.

 

Aqui chegados e após encurtar uma história que por si só daria um romance desde que nele se introduzissem os ingredientes, necessários para a tornar mais condimentada, é hora de dela extrair os ensinamentos e os aplicar à analise dos conceitos da Moral e da Honra, por forma a verificar se os mesmos são fixos e imutáveis ou se antes pelo contrário se encontram escravizados pelas mesmas regras relativistas a que se vergam o tempo e o espaço.

Em abono da verdade e para os defensores dos gastos esportulantes da nossa cobaia humana, a quem peço desde já as minhas desculpas por o deixar merecidamente pobre, sempre se poderá dizer que o mesmo não se terá esquivado ao cumprimento da sua palavra inicial.

Pois, existindo uma substancial alteração das circunstâncias em que a promessa havia sido feita, importaria acrescer uma nova avaliação e medição dos pressupostos iniciais, pois tal promessa havia sido feita de um pobre para pobres e não de um rico para os pobres.

E se o nosso bom homem tivesse sido colocado na posição de assumir o compromisso com tamanho pecúlio em ganho, de certo não teria feito essa ruinosa promessa.

 

Para os outros desmancha prazeres, que contrariando a relatividade da honra e da moral terão direito de atacar tal posição, afirmarão em abono da sua verdade que a promessa terá sido feita por um homem bom que fazia o bem pelo próprio facto de o fazer e que isso lhe fazia igualmente sentir bem consigo próprio e com a sua consciência enquanto ser humano.

Defendendo ainda que a honra e a moral não são elásticas em função do valor envolvido e que uma promessa feita a si próprio tem o mesmo valor independente do pecúlio em discussão.

Vocacionam a valia do seu raciocínio para o acto de fazer o bem independentemente do valor financeiro envolvido, focando a sua análise no facto de, com um pecúlio maior, seria mais fácil de atingir esse objectivo.

 

Não vou tomar qualquer posição sobre a valia ou desvalia do promitente cumpridor ou consoante o campo relativizado da honra e da moral o promitente não cumpridor, pois o que se pretende avaliar não é a justeza da decisão que foi tomada, mas tão somente atingir como válido que regra geral a Honra e a Moral vacilam no seu campo relativo para um lado ou para outro consoante o proveito que estiver envolvido.

Concluindo que a Honra e a Moral podem ser relativas em função da vantagem retirada por quem delas avalia.

Para os amigos recentes do novo rico a vantagem que pretendiam recolher hipotecava a noção que o nosso homem tinha da Honra enquanto pobre.

Para o nosso novo homem, perante a possibilidade de ficar sem o acesso às novas utilidades e ilusória posição social que julgava ter definitivamente adquirido tornava-se mais fácil descartar da Honra e da desvalia Moral invocando uma alteração substancial das circunstâncias em que tal promessa havia sido feita, o que inviabilizaria na sua consequência o cumprimento final.

 

Resulta da pequena historieta contada e apressadamente encurtada que os conceitos da Moral e da Honra se enquadram nas regras estabelecidas pela teoria da relatividade?

Será a moral e a Honra relativa e elástica consoante os benefícios que deles o observador pretende retirar, tal como Einstein preconizou para o espaço-tempo?

São estas questões que vos deixo em desafio de resolução para que as procurem decifrar e resolver e resolvendo-as se transformem em boas ou más pessoas consoante a solução que venham a adoptar.

É no entanto seguro que quaisquer das respostas que forem dadas ao problema poderão ser irrelevantes, uma vez que o conceito do Bem e do Mal deverá obedecer às mesmas flutuações quânticas e relativistas da Moral e da Honra, pelo que relativa seria a qualificação.

 

2018 Gameiro Fernandes

 

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