TRANSPORTES

TRANSPORTES - Ferrovia como solução

Ordem dos Engenheiros põe na mesa a discussão da utilização da rede ferroviária nacional. Governo tem estratégia para implementar, mas participantes do debate realçam que Portugal está a ficar isolado da Europa no que toca ao transporte de mercadorias e pessoas via caminhos de ferro

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Decorreu esta quarta-feira um debate sobre como a ferrovia pode ser uma solução para o país. Organizada pela Ordem dos Engenheiros, a conferência centrou-se nas utilizações variadas da rede ferroviária europeia, tendo o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, encerrado a mesma. 

 

Alguma cisão, própria do tema, apoderou-se da discussão de ideias, sendo que grande parte dos intervenientes esgrimiu com Carlos Fernandes, vice-presidente das Infraestruturas de Portugal, pela ideia de que Portugal corre o risco de ficar cada vez mais afastado da Europa devido ao pouco desenvolvimento da ferrovia nacional e além-fronteiras. Mira Amaral apresentou algumas conclusões, nomeadamente que a questão das alterações climáticas leva consequentemente a um menor uso do transporte de mercadorias via camião; de que Espanha evolui a sua bitola para fornecer mais capacidade à Europa e de que apenas 6% das exportações portuguesas são feitas via ferrovia.


Apelando a mais do que a simples questão de um TGV para transporte rápido de pessoas, alertou-se para o perigo de os carris portugueses se tornarem "obsoletos", pedindo-se uma ação rápida para diminuir custos e tempo de espera no transporte de mercadorias.



O Ministro das Infraestruturas, Pedro Marques, elucida que o Plano Ferrovia 2020 demorou devido aos condicionalismos do desinvestimento na área, reconhecendo que "Portugal parou nesse aspeto" mas que se dá agora o inverso. "É um programa de investimento que reforça a ligação com Espanha. Temos a maior obra de sempre na ferrovia, entre Évora e Elvas, além da modernização de mais de 50% da rede e de dois mil milhões de euros de investimento. Há dificuldade na interoperabilidade, mas estamos em sintonia com Espanha, com noção de que a perspetiva bilateral reafirma o investimento na ferrovia e na vertente transfronteiriça. Qualquer projeto de bitola europeia só será efetuado se Portugal e Espanha assim o decidirem", afirmou, destacando a eletrificação de novas redes e aumento dos vagões para potenciar o incremento das mercadorias.  



Carlos Fernandes,desmistificou que tenha  havido uma revolução na ferrovia na Europa. "Nenhum país abandonou a sua rede. O que aconteceu foi criarem uma linha de TGV por cima da que era utilizada. Não há 25 mil milhões de euros para revolucionar as estruturas que já existem desde o século XIX. Não se trata de ter uma bitola ibérica ou europeia", refutando a tese de que Espanha promove um monopólio na ferrovia, levando as mercadorias portuguesas recebidas após transporte de camião em Badajoz ou Salamanca.


Henrique Neto, engenheiro e ex-candidato à Presidência da República, discordou: "Fico constrangido com o Portugal pequenino, das desculpas. Os nossos antepassados não eram assim. Ao longo de oito séculos não nos entendemos com Espanha e íamos a outros países. Agora temos a União Europeia. Parece que não queremos defender os nossos interesses na Europa. Não queremos ser uma ilha ferroviária", garante.                                                        



O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, elogiou o debate público para uma cidadania ativa.
"Estou muito feliz por ter apoiado a iniciativa. Quero reiterar o apoio à classe. O tema é múltiplo porque se trata de reafirmar a importância da ferrovia. Foi vítima injusta da rodovia e tornou-se, felizmente, um consenso de que é indispensável. Pensei que fosse uma preocupação de dezenas e não umas centenas. A persistência é fundamental à cidadania, ora por intervir ora por estar atento. É positivo haver a oportunidade de ouvir, ao vivo, a opinião do Governo na primeira pessoa. Há convergências e divergências e isso é de salutar".


O Bastonário da Ordem dos Advogados salientou a satisfação por ter Marcelo no púlpito: "Tem um significado enorme ser o primeiro Presidente a sentar-se a esta mesa".

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